Círculo de Cultura – Ciências do Estado

Um Círculo de Cultura não começa por uma aula, e sim por uma imagem. Cada uma das sete cenas abaixo é uma codificação: uma situação existencial comum a quem estuda Ciências do Estado, desenhada para ser lida em grupo. Ninguém explica a imagem para os outros. O grupo olha, reconhece a própria vida ali dentro e vai decodificando o que parecia apenas rotina.

As perguntas que acompanham cada cena são apenas geradoras. Elas servem para abrir a conversa, não para fechá-la em uma resposta certa.


1. A Espera do Ônibus

Estudantes com mochilas esperam o ônibus num ponto de parada, com a cidade e um morro ocupado ao fundo.

Perguntas geradoras: quanto tempo do dia de cada um se gasta no caminho até a universidade? Esse tempo aparece em algum lugar quando se fala em desempenho acadêmico? Quem mora perto e quem mora longe, e por quê?

2. A República

Quatro jovens dividem a cozinha de uma república: um cozinha, outra lava a louça, um mexe no celular e uma estuda na mesa cheia de livros.

Perguntas geradoras: a mesa de estudo é a mesma mesa da janta. O que isso muda? Como se divide o trabalho doméstico na casa em que vocês moram? Quem sustenta a permanência de quem estuda?

3. A Biblioteca

Dois estudantes leem e trabalham numa biblioteca; pela janela se vê a cidade e uma encosta ocupada por casas.

Perguntas geradoras: o que a janela mostra? A cidade que aparece do lado de fora entra nos livros que estão sobre a mesa? Sobre quem se produz conhecimento aqui, e para quem?

4. O Portão da Faculdade

Estudantes entram e saem por um portão de ferro e sobem a escadaria de um prédio antigo da faculdade; um deles usa cadeira de rodas e um porteiro segura o portão.

Perguntas geradoras: quem atravessa esse portão todos os dias e quem nunca chegou até ele? O prédio foi construído pensando em quais corpos? Quem abre o portão trabalha aqui, mas estuda onde?

5. O Turno Antes da Aula

Jovem de avental atrás do balcão de uma loja olha o relógio no pulso; a mochila com livros está no chão e um ônibus passa na rua molhada.

Perguntas geradoras: a mochila espera no chão enquanto o expediente não termina. Quantos de nós trabalham e estudam? O que se deixa de fazer na faculdade por causa do turno? Estudar é um direito ou uma sobra do dia?

6. Cuidado e Estudo

Mulher estuda de madrugada na mesa da sala, sob a luz do lustre, enquanto uma criança dorme na cama ao lado e uma senhora idosa cochila na poltrona.

Perguntas geradoras: quem cuida de quem nesta cena? Por que a hora de estudar é a madrugada? Esse trabalho de cuidado aparece em algum currículo, em alguma estatística, em alguma política de permanência?

7. O Círculo de Cultura

Dez jovens sentados no chão em roda conversam; ao centro do círculo estão mochila, livros, marmita, chaves e um crachá.

Perguntas geradoras: a roda não tem quem esteja à frente. No centro estão os objetos das seis cenas anteriores: a mochila, os livros, a marmita, as chaves, o crachá. O que muda quando essas situações deixam de ser um problema de cada um e passam a ser um problema comum? O que este grupo pode fazer com o que descobriu?


Sugestão de Palavras Geradoras

Depois de decodificar as situações, o Círculo levanta as palavras que nomeiam aquilo que foi visto. Freire trabalhava com um conjunto pequeno, entre quinze e vinte palavras, escolhido por três critérios simultâneos: riqueza fonêmica, para que as famílias silábicas do conjunto cubram todo o repertório necessário à leitura e à escrita; dificuldade fonética crescente, começando pelas sílabas canônicas simples e chegando às travadas, aos dígrafos e aos encontros consonantais; e teor pragmático, isto é, a densidade política e existencial da palavra na vida de quem a pronuncia.

Cada palavra é depois decomposta em suas famílias silábicas (de panela saem pa-pe-pi-po-pu, na-ne-ni-no-nu, la-le-li-lo-lu), e das famílias o grupo passa a criar palavras novas. A lista abaixo sai das sete situações desta página e está ordenada da menor para a maior dificuldade fonética.

#PalavraSituação de origemO que a palavra introduz
1panelaA Repúblicasílabas simples: pa, ne, la
2mochilaA Espera do Ônibusdígrafo ch
3janelaA Bibliotecaj, e o contraste com g de relógio
4marmitaO Turno Antes da Aulaprimeira sílaba travada em r
5cozinhaA Repúblicaz e o dígrafo nh
6bolsaO Portão da Faculdadesílaba travada em l, e a palavra que também quer dizer permanência
7ônibusA Espera do Ônibusvogal inicial acentuada e s em final de palavra
8bairroA Bibliotecaditongo ai e dígrafo rr
9esquinaA Espera do Ônibusqu e a sílaba inicial travada em s
10relógioO Turno Antes da Aular forte inicial e g brando
11aluguelA Repúblicagu e l em final de palavra
12famíliaCuidado e Estudof e o hiato i-a
13faculdadeO Portão da Faculdadesílaba travada em l no interior da palavra
14livroA Bibliotecaencontro consonantal vr
15cracháO Círculo de Culturaencontro cr com o dígrafo ch
16trabalhoO Turno Antes da Aulaencontro tr com o dígrafo lh
17assembleiaO Círculo de Culturadígrafo ss, encontro bl e ditongo ei
18palavraO Círculo de Culturaencontro vr na palavra que nomeia o próprio método
19greveO Portão da Faculdadeencontro gr com g forte
20portãoO Portão da Faculdadesílaba travada em r e nasal ão
Vinte palavras geradoras extraídas das sete situações, em ordem de dificuldade fonética crescente.

A lista é uma proposta, não um programa fechado. No Círculo de Cultura as palavras geradoras nascem antes de tudo da pesquisa do universo vocabular do grupo: são as palavras que o próprio grupo já usa para dizer a sua vida. Se ao decodificar as figuras aparecerem outras palavras com mais força, elas devem entrar no lugar destas, desde que o conjunto continue cobrindo os fonemas necessários.


A referência é FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967, em especial o apêndice com as situações existenciais em ilustrações, feitas por Francisco Brennand para os círculos de cultura. As cenas desta página são uma adaptação daquele exercício ao cotidiano de quem cursa Ciências do Estado.