Um Círculo de Cultura não começa por uma aula, e sim por uma imagem. Cada uma das sete cenas abaixo é uma codificação: uma situação existencial comum a quem estuda Ciências do Estado, desenhada para ser lida em grupo. Ninguém explica a imagem para os outros. O grupo olha, reconhece a própria vida ali dentro e vai decodificando o que parecia apenas rotina.
As perguntas que acompanham cada cena são apenas geradoras. Elas servem para abrir a conversa, não para fechá-la em uma resposta certa.
1. A Espera do Ônibus

Perguntas geradoras: quanto tempo do dia de cada um se gasta no caminho até a universidade? Esse tempo aparece em algum lugar quando se fala em desempenho acadêmico? Quem mora perto e quem mora longe, e por quê?
2. A República

Perguntas geradoras: a mesa de estudo é a mesma mesa da janta. O que isso muda? Como se divide o trabalho doméstico na casa em que vocês moram? Quem sustenta a permanência de quem estuda?
3. A Biblioteca

Perguntas geradoras: o que a janela mostra? A cidade que aparece do lado de fora entra nos livros que estão sobre a mesa? Sobre quem se produz conhecimento aqui, e para quem?
4. O Portão da Faculdade

Perguntas geradoras: quem atravessa esse portão todos os dias e quem nunca chegou até ele? O prédio foi construído pensando em quais corpos? Quem abre o portão trabalha aqui, mas estuda onde?
5. O Turno Antes da Aula

Perguntas geradoras: a mochila espera no chão enquanto o expediente não termina. Quantos de nós trabalham e estudam? O que se deixa de fazer na faculdade por causa do turno? Estudar é um direito ou uma sobra do dia?
6. Cuidado e Estudo

Perguntas geradoras: quem cuida de quem nesta cena? Por que a hora de estudar é a madrugada? Esse trabalho de cuidado aparece em algum currículo, em alguma estatística, em alguma política de permanência?
7. O Círculo de Cultura

Perguntas geradoras: a roda não tem quem esteja à frente. No centro estão os objetos das seis cenas anteriores: a mochila, os livros, a marmita, as chaves, o crachá. O que muda quando essas situações deixam de ser um problema de cada um e passam a ser um problema comum? O que este grupo pode fazer com o que descobriu?
Sugestão de Palavras Geradoras
Depois de decodificar as situações, o Círculo levanta as palavras que nomeiam aquilo que foi visto. Freire trabalhava com um conjunto pequeno, entre quinze e vinte palavras, escolhido por três critérios simultâneos: riqueza fonêmica, para que as famílias silábicas do conjunto cubram todo o repertório necessário à leitura e à escrita; dificuldade fonética crescente, começando pelas sílabas canônicas simples e chegando às travadas, aos dígrafos e aos encontros consonantais; e teor pragmático, isto é, a densidade política e existencial da palavra na vida de quem a pronuncia.
Cada palavra é depois decomposta em suas famílias silábicas (de panela saem pa-pe-pi-po-pu, na-ne-ni-no-nu, la-le-li-lo-lu), e das famílias o grupo passa a criar palavras novas. A lista abaixo sai das sete situações desta página e está ordenada da menor para a maior dificuldade fonética.
| # | Palavra | Situação de origem | O que a palavra introduz |
|---|---|---|---|
| 1 | panela | A República | sílabas simples: pa, ne, la |
| 2 | mochila | A Espera do Ônibus | dígrafo ch |
| 3 | janela | A Biblioteca | j, e o contraste com g de relógio |
| 4 | marmita | O Turno Antes da Aula | primeira sílaba travada em r |
| 5 | cozinha | A República | z e o dígrafo nh |
| 6 | bolsa | O Portão da Faculdade | sílaba travada em l, e a palavra que também quer dizer permanência |
| 7 | ônibus | A Espera do Ônibus | vogal inicial acentuada e s em final de palavra |
| 8 | bairro | A Biblioteca | ditongo ai e dígrafo rr |
| 9 | esquina | A Espera do Ônibus | qu e a sílaba inicial travada em s |
| 10 | relógio | O Turno Antes da Aula | r forte inicial e g brando |
| 11 | aluguel | A República | gu e l em final de palavra |
| 12 | família | Cuidado e Estudo | f e o hiato i-a |
| 13 | faculdade | O Portão da Faculdade | sílaba travada em l no interior da palavra |
| 14 | livro | A Biblioteca | encontro consonantal vr |
| 15 | crachá | O Círculo de Cultura | encontro cr com o dígrafo ch |
| 16 | trabalho | O Turno Antes da Aula | encontro tr com o dígrafo lh |
| 17 | assembleia | O Círculo de Cultura | dígrafo ss, encontro bl e ditongo ei |
| 18 | palavra | O Círculo de Cultura | encontro vr na palavra que nomeia o próprio método |
| 19 | greve | O Portão da Faculdade | encontro gr com g forte |
| 20 | portão | O Portão da Faculdade | sílaba travada em r e nasal ão |
A lista é uma proposta, não um programa fechado. No Círculo de Cultura as palavras geradoras nascem antes de tudo da pesquisa do universo vocabular do grupo: são as palavras que o próprio grupo já usa para dizer a sua vida. Se ao decodificar as figuras aparecerem outras palavras com mais força, elas devem entrar no lugar destas, desde que o conjunto continue cobrindo os fonemas necessários.
A referência é FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967, em especial o apêndice com as situações existenciais em ilustrações, feitas por Francisco Brennand para os círculos de cultura. As cenas desta página são uma adaptação daquele exercício ao cotidiano de quem cursa Ciências do Estado.